sexta-feira, 19 de julho de 2013

Questionário sobre a percepção de bem-estar animal entre vegetarianos e não-vegetarianos,

Galera esse questionário é de um trabalho realizado pela  aluna da PUC Andressa Luiza Cordeirosob orientação da Prof.Marta Fischer 


O trabalho tem por objetivo:  

"Avaliar sa percepção de bem estar animal é semelhante ou não para pessoas vegetarianas e não-vegetarianas."







Vamos colaborar com essa pesquisa preenchendo o questionário.

São dois questionários, uma para não vegetarianos e outro para vegetarianos. 

Por favor responda somente um deles.  

Qualquer dúvida ou comentários fique a vontade para mandar um e-mail

Após preenchido enviar o questionário para a Andressa no e-mail:
andressalcordeiro@hotmail.com

Muito obrigado! 
=D


quinta-feira, 11 de julho de 2013

Viés cognitivo como um método de avaliação da dor após a mochação a ferro quente

Ainda falando sobre os trabalhos apresentados no ISAE os próximos 2 tópicos vão discutir sobre um tema aparentemente complicado (mas na verdade nem tanto!) e de muito valor para a Ciência do Bem-Estar Animal.

Os trabalhos dos alunos Heather Neave e Ruan Daros serão apresentados em 2 postagens. 
Começaremos então pelo trabalho da Heather Neave, aluna de mestrado da UBC (University of British Columbia).

Desde já gostaria muito de agradecê-la por disponibilizar o material para a postagem aqui no blog e também parabenizá-la pelo excelente trabalho!

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As questões de bem-estar animal são normalmente baseadas na suposição de que animais podem vivenciar subjetivamente estados emocionais e podem, portanto, sofrer ou vivenciar prazer.

No entanto seria possível avaliar as emoções dos animais?

Essa é uma meta importante da pesquisa sobre o bem-estar dos animais, principalmente para aqueles destinados a produção, pois esses, muitas vezes, são considerados pela sociedade como seres incapazes de demonstrar emoções.
Porém, aqueles que convivem com animais de produção diariamente com certeza afirmarão o contrário.

Mas como demonstrar através da pesquisa que os animais podem sim demonstrar emoções?

O estudo dos estados emocionais nos animais tem tradicionalmente usado mensurações comportamentais e fisiológicas. No entanto, o viés cognitivo é uma técnica recente que baseia-se no componente cognitivo da emoção para compreender e avaliar objetivamente os estados emocionais em animais.

O viés cognitivo é definido como a influência da emoção na cognição e se baseia no conceito de que seres humanos deprimidos interpretam estímulos ambíguos negativamente.

Para exemplificar melhor o conceito pense em um copo de água:

Indivíduos positivos interpretam o copo de água como meio cheio e indivíduos negativos interpretam o copo como meio vazio.

Como se deve aplicar então o conceito do viés cognitivo aos animais?
Essa técnica nos possibilita fazer perguntas como:

"Como os animais se sentem quando...."
  • Enriquecimento ambiental é adicionado / removido
  • O ambiente das instalações é imprevisível ou agitado
  • É liberado de restrição
  • É isolado do parceiro social


Se espera que várias emoções surjam de cada uma dessas manipulações, no entanto, curiosamente, sem nenhum foco sobre a dor.

DOR é definida como uma experiência sensorial e emocional desagradável associada a dano tecidual real ou potencial.

Muitos procedimentos utilizados em fazendas envolvem dor, como é o caso da mochação, castração e corte de cauda.


Como a dor é um estado emocional claramente entendido, e seu componente emocional é importante também para os animais, estudar o viés cognitivo em relação a dor bastante interessante para se avaliar as emoções nos animais.

Esse foi, portanto, o objetivo do estudo da Heather:

Avaliar o efeito da mochação sobre o estado emocional de bezerros leiteiros na fase de dor pós-operatória.

Nesse intuito foram realizados 2 experimentos a fim de se responder as seguintes perguntas:

Experimento 1: Existe um viés cognitivo nesse caso?

Experimento 2: Se existe, o viés é somente um efeito do aprendizado?

A hipótese do estudo seria a de que os bezerros iriam apresentar um viés pessimista após a mochação, sem evidências de aprendizagem.

Foram utilizados 8 bezerros Holandeses, treinados a executar uma tarefa de discriminação visual, em cada experimento. 

TREINAMENTO

Metade dos animais foram treinados de forma que:


E para a outra metade as telas seriam:


O vídeo a seguir demonstra o treinamento aplicado aos animais:




Após esse treinamento os animais foram apresentados a telas com cores intermediárias. 


A aproximação dessas telas foi mensurada horas antes e depois da mochação nos 2 experimentos.

Todos os animais receberam sedativo e lidocaína antes da mochação em ambos os experimentos.

EXPERIMENTO 1

A mochação resulta em um viés de juízo negativo durante a dor no pós-operatório?

No experimento 1 os animais eram mochados (2 cornos) e avaliados segundo o teste descrito anteriormente.


RESULTADOS

EXPERIMENTO 2

O viés é devido aos bezerros aprenderem a não responder as telas ambíguas?

No segundo experimento a mochação e os testes eram feitos da seguinte forma, os animais eram testados antes e depois da mochação de um corno e após 4 dias eram testados antes e depois da mochação do corno remanescente, como mostra a figura a seguir. 


RESULTADOS




CONCLUSÕES

Bezerros responderam mais negativamente para estímulos visuais ambíguos após mochação a ferro quente.

O viés negativo não é devido à aprendizagem: bezerros voltaram ao valor inicial antes da segunda mochação.

A segunda mochação teve um forte viés negativo, indicando um efeito potencial de experiência anterior.


REFERÊNCIA

NEAVE, H. W.; VON KEYSERLINGK, M. A. G.; WEARY, D. M. Dairy calves show negative judgement bias following hot-iron disbudding. In: 47° Congress of the ISAE, 2013, Florianópolis: Anais do 47° Congress of the ISAE. p.87.


quarta-feira, 3 de julho de 2013

MOTIVAÇÃO DE VACAS LEITEIRAS PARA ACESSO AO PASTO

Hoje vou escrever sobre mais um projeto apresentado no ISAE que traz uma abordagem bastante interessante sobre a preferência pelo pasto por vacas leiteiras

O trabalho foi realizado na UBC (University of British Columbia), pela colega Andressa Amorim Cestari, aluna de doutorado na UEL.



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O acesso ao pasto é tido como importante para o bem-estar de vacas leiteiras criadas em confinamento e estudos utilizando testes de preferência vêm mostrando que esta preferência pode ser parcial, variando de acordo com o clima, oferta de comida, hora do dia e até mesmo dependendo da experiência prévia dos animais.
 No entanto até o momento ninguém tinha tentado "perguntar" às vacas o quanto elas estão dispostas a "pagar" para ter acesso ao pasto. Se isso for importante para elas, assim como nós, elas seriam capazes de "pagar" altos preços para ter um tempo na pastagem certo?!
 Foi essa a pergunta que a Andressa tentou responder em seu trabalho. Usando um portão com peso, que aumentava periodicamente, a força de motivação para acesso ao pasto foi mensurada.
O trabalho foi realizado em duas etapas, uma onde os animais foram treinados a abrir o portão e em seguida se testou a motivação por comida fresca e a outra onde a motivação pela pastagem foi testada utilizando-se o mesmo portão.
Os resultados foram bem interessantes. Confiram! 


ANIMAIS


24 vacas Holandesas, com  220,5 ± 14,4 dias em lactação (média ± desvio padrão) e produção de 30,0 ± 3,8 L leite/dia foram distribuídas aleatoriamente a 4 grupos (6 vacas cada). Cada um desses grupos foi testado separadamente em 2 experimentos.


DELINEAMENTO EXPERIMENTAL


EXPERIMENTO 1





No Experimento 1 as vacas tinham que empurrar um peso de 7 Kg anexado a um portão para terem acesso à comida fresca. Uma vez que as vacas eram treinadas para essa tarefa o peso foi aumentado diariamente (em 7 Kg) até que elas não demonstrassem interesse em realizar a tarefa.





EXPERIMENTO 2






No Experimento 2 as vacas foram treinadas a acessar o pasto com o mesmo portão e o grau de motivação foi medido em um teste de livre escolha. Outra vez o peso era aumentado (7 kg/dia) até que elas não demonstrassem mais interesse em realizar a tarefa.


Esse vídeo mostra a utilização do portão para acesso ao pasto.





RESULTADOS


As vacas empurraram  36,54 ± 14,09 kg  para acessar a comida enquanto que para acessar o pasto empurraram 31,63 ± 17, 54 kg (t22 = -1,34; P = 0,1958).
Durante as horas claras do dia as vacas passaram 76,01 ± 30,55 %  do tempo do lado de fora (o tempo restante estavam dentro do free stall). 
Enquanto no pasto as vacas passaram 40,66 ± 19,42 % do tempo pastando.

A figura a seguir mostra a diferença do peso no portão, para cada vaca, entre os testes de motivação para acesso à comida fresca e para acesso ao pasto. O primeiro ponto, por exemplo, marca cerca de 10 kg acima do eixo X, o que nos diz que esta vaca trabalhou mais para ter acesso ao pasto do que para ter acesso à comida; ou que empurrou no portão em média 10 kg a mais para ter acesso ao pasto do que para ter acesso à comida fresca após a ordenha. 




CONCLUSÃO


Os resultados encontrados demonstram que vacas leiteiras normalmente confinadas são tão motivadas a acessar o pasto quanto são para ter acesso a comida fresca após a ordenha.


REFERÊNCIA



CESTARI, A. A.; FREGONESI, J. A.; WEARY, D. M.; VON KEYSERLINGK, M. A. G.
 Motivation for access to pasture in dairy cows. In: 47° Congress of the ISAE, 2013, Florianópolis: Anais do 47° Congress of the ISAE. p.115.


A festa do primeiro dia no pasto =D

quinta-feira, 27 de junho de 2013

BEZERRAS PODEM SER ENSINADAS A URINAR EM UM LUGAR ESPECIFICO

Entre os dias 2-6 de junho participei do 47° ISAE em Florianópolis e como falei anteriormente muitas pesquisas interessantes foram apresentadas no Evento.

Resolvi então partilhar com vocês os tópicos que achei mais interessante. 

Começarei pelo tema mais polêmico apresentado no ISAE, que, inclusive, ganhou o prêmio de poster mais criativo.

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Já pensou se fosse possível treinar vacas leiteiras a urinarem e defecarem em um local determinado como a gente faz com os cãezinhos nos seus primeiros dias e vida?

Tenho certeza que muitos produtores ficariam bem felizes com a ideia de ter um ambiente limpo dentro do confinamento, além de reduzir a mão-de-obra de limpeza.

Parece algo impossível não é mesmo?!
No entanto a aluna Alison Vaughan resolveu  tentar provar o contrário!



Um dos maiores problemas dos sistemas de confinamento é o manejo de dejetos. Manter o ambiente limpo é, normalmente, um dos maiores desafios em fazendas leiteiras.
A maioria dos sistemas, inclusive, foram desenvolvidos de forma a restringir os animais para evitar que as fezes e urina sujem a cama. É o caso  dos sistemas free stall e tie stall, que apresentam a barra de contenção do pescoço, responsável por evitar que as vacas fiquem em pé com 4 patas na cama a fim de manter a cama limpa. 
No entanto, baias restritivas estão relacionadas tanto a alterações de comportamento de vacas leiteiras como a afecções de casco. 
Se os animais urinassem e defecassem em apenas um local essa contaminação, tanto da cama como do restante das instalações, seria bastante reduzida e consequentemente a mão-de-obra para limpeza do curral também seria reduzida. 
Além disso, seria possível a utilização de sistemas com partições menos restritivas e mais confortáveis aos animais.
Porém, normalmente se assume que bovinos não são capazes de controlar a urina e fezes e muitos duvidam da capacidade desses animais de serem treinados.
Mas... seria isso verdade?!

O objetivo do trabalho da Alison foi exatamente tentar provar que isso é possível. 
Utilizando bezerras ela testou se os bovinos podem ser treinados a urinar em um local específico.

ANIMAIS 

Foram utilizadas 6 bezerras Holandesas alojadas em grupo cada uma com um par controle (31-68 dias).
As bezerras foram distribuídas aleatoriamente entre grupo controle e tratamento com base na ordem de nascimento

CRONOGRAMA

Os animais foram treinados por 17 dias (+2 dias pré-treinamento), com uma sessão de treinamento por dia.

DIA 1-2: PRÉ-TREINAMENTO
Os bezerros controle e tratamento foram encaminhados tanto ao curral de recompensa  (maior espaço,cepilho e leite) como ao de punição (menor espaço, sem cama e sem leite), 3x em cada lado, de acordo as série modificada de Gellerman .


DIA 3: PRIMEIRO DIA DE TREINAMENTO
As bezerras do tratamento eram mantidas em uma baia, recebiam diurético via endovenosa (Salix0.5 mg/kg) e após a urinação eram imediatamente liberadas da baia em um curral de recompensa com cama de cepilho onde recebiam 250 ml de leite (Figura 1)

Figura 1. Procedimento para bezerras experimentais nos dias de treinamento (diurético). Figura: 1=injeção de diurético; 2=ao urinar uma sirene tocava e 3=o portão era aberto



DIA 4: PRIMEIRO DIA DE TESTE
As bezerras tratamento eram mantidas na baia. Se urinassem eram imediatamente liberadas no curral de recompensa onde recebiam 250 ml de leite. Bezerras que não urinavam em 15 minutos eram liberadas em um curral pequeno, sem cama, por 5 minutos. 

DIA 5-19: PERÍODO EXPERIMENTAL RESTANTE
Às bezerras tratamento que urinavam na baia durante o teste eram dadas um dia adicional de teste no dia seguinte. Àquelas que falhavam em urinar eram dadas um dia de treinamento no dia seguinte. Esse padrão foi seguido pelo restante do período de treinamento.

CONTROLES



AS BEZERRAS CONTROLE NUNCA RECEBIAM DIURÉTICO MAS ERAM MANTIDAS NA BAIA PELO MESMO PERÍODO DE TEMPO E RECEBIAm A MESMA "RECOMPENSA" OU "PUNIÇÃO" QUE O SEU PAR DE BEZERRA TRATAMENTO TEVE NO DIA ANTERIOR. 

MENSURAÇÕES
  • Número de "urinações espontâneas" na baia (aquelas ocorridas nos dias de teste, quando as bezerras não receberam diurético).
  • Defecações e vocalizações dentro da baia.


RESULTADOS





Figuras 2-7. Número cumulativo de urinações em dias de testes (urinações que ocorreram no dia da aplicação de diurético). As linhas vermelhas representam as bezerras tratamento e a linha azul representam os animais controle. As setas demonstram os dias de aplicação de diurético.


As bezerras experimentais tiveram uma frequência maior de "urinações voluntárias" (aquelas ocorridas em dias que as bezerras tratamento não receberam diurético) que seus pares controle; respetivamente, 5.25+0.95 vs. 2.32+0.52 (média+DP)

Cinco das Seis bezerras tratamento urinaram mais que seus pares controles.

CONCLUSÃO


Os resultados desse trabalho demonstram que pode ser possível treinar bovinos a urinar em um local específico do curral. No entanto mais pesquisas são necessárias para determinar se a frequência das urinações voluntárias pelas bezerras no tratamento de treinamento refletem condicionamento operante ou clássico.

REFERÊNCIA

VAUGHAN, A.; DE PASSILÉ, A. M.; STOOKEY, J.; USHEN, J. Calves can be taught to urinate in a specific place. In: 47° Congress of the ISAE, n.5, 2013, Florianópolis: Anais do 47° Congress of the ISAE. p.120.

Gostaria de agradece primeiramente a Alison por disponibilizar o material para que eu postasse aqui no blog e também parabenizá-la pela pesquisa desenvolvida.
Toda idéia parece impossível a primeira vista e o papel do pesquisador é muitas vezes testar o "impossível"
Com certeza já chamaram-na de louca por testar algo assim
Mas temos que lembrar que grandes nomes da ciência também foram chamados de loucos um dia
Quando se trata de Ciência o céu é o limite =D

Segue o vídeo que ela me enviou, divirtam-se:





Boa noite a todos







sexta-feira, 17 de maio de 2013

Simpósio Paranaense dos Centros Mesorregionais de Excelência em Tecnologia do Leite


Boa tarde galera!



Esse post vai para todos aqueles que se interessam pela cadeia leiteira 



             Entre os dias 25 e 26 de junho vai acontecer o Simpósio Paranaense dos Centros Mesorregionais de Excelência em Tecnologia do Leite na Universidade Estadual de Londrina.

      No evento importantes pesquisadores, produtores, técnicos e outros profissionais da área estarão reunidos para falar de leite. Um importante momento para discutir os problemas da cadeia, buscar soluções, saber das novidades e conhecer as atividades dos Centros Mesorregionais de Excelência em Tecnologia do Leite do Paraná.
                 



              Se você faz parte da cadeia do leite, não pode perder esta oportunidade!!!!




             Enriqueça o evento mandando artigos e participando das discussões.



Segue o link, para maiores informações:


terça-feira, 7 de maio de 2013

AMBIENTE NATURAL vs. AMBIENTE IDEAL


Hoje gostaria de colocar um tema um tanto quanto polêmico para discussão:


 "O que seria o ambiente natural dos bovinos?" 
"Qual seria o ambiente ideal?"

Tenho certeza que você acabou de pensar em um pasto verdinho e um rebanho bonito andando pra lá e pra cá, e deve estar pensando ai: "Ah isso é fácil de responder!!!" mas será que é mesmo?



Quando se tenta definir condições naturais ou ambientes naturais para os animais domésticos as dificuldades são inúmeras. Para muitas espécies, a longa história de domesticação torna difícil a definição do que é ambiente e comportamento natural, uma vez que a interação com humanos mudou muito as trajetórias das raças, como é o caso dos bovinos  (FRASER, 2012).

Os ancestrais dos bovinos domésticos, se extinguiram a várias centenas de anos e a análise genética mostra que o gado doméstico divergiu dessas espécies selvagens centenas de anos atrás (RITZ et al., 2000), isso torna difícil determinar o quanto a domesticação influenciou o comportamento e também se as raças modernas mantiveram ou não o comportamento de seus ancestrais (RUSHEN et al, 2008), impossibilitando, muitas vezes, a utilização de informações de comportamento de ancestrais selvagens dos bovinos para avaliar quais comportamentos são naturais para o gado doméstico.

Ao longo desse processo de domesticação, não podemos esquecer que também ocorreu o processo de intensificação da produção, onde não só a genética foi alterada a fim de aumentar a produção mas também ocorreu a criação de sistemas de criação, tanto de confinamento quanto a pasto, e junto a tudo isso aconteceu uma seleção de animais mais adaptáveis às condições de criação, essa seleção muitas vezes involuntária é o que torna ainda mais difícil definir qual o ambiente natural e ideal para os bovinos.

Atualmente vacas leiteiras confinadas são criadas em condições que nós consideramos muito pouco "naturais", gerando diversas fontes de problemas quanto ao bem-estar, no entanto alguns desses problemas poderiam ser resolvidos ou reduzidos se os animais fossem mantidos em condições mais “naturais”. Mas que condições seriam essas se ainda nos é difícil definir o que é ambiente natural dos bovinos?
          
Um fator muito importante quando se fala de ambiente natural é a ADAPTAÇÃO. Os bovinos são animais extremamente adaptáveis, portanto se essa naturalidade da qual estamos falando for analisada não como ambiente natural, nem em termos de comportamento normal, mas sim em termos de adaptação natural que os animais adquirem, alguns desses confundimentos podem ser evitados (FRASER 2012).


 Para se exemplificar esse conceito vamos pensar no gado leiteiro. O ambiente natural de vacas leiteiras, na nossa concepção, deveria ser um pasto, onde elas poderiam expressar seu comportamento natural (pastar, ruminar, viver em rebanhos e se reproduzir) com a menor intervenção humana possível, certo?!
No entanto se pensarmos nessa condição como o melhor bem-estar para esses animais devemos ponderar que, nessas condições os animais estariam predispostos a doenças além do estresse causado por predadores e possível falta de alimento e ainda ter que lidar com frio, chuva ou calor excessivo, dentre outros desafios. Enquanto que se estivessem confinadas estariam protegidas da maioria das intempéries presentes no ambiente natural, porém seu comportamento natural estaria comprometido. 
Nesse sentido poderíamos concluir que o confinamento proporcionaria melhor qualidade de vida às vacas leiteiras, mesmo alterando seu comportamento natural. A razão para tal conclusão seria a possível adaptação desses animais a tal ambiente e também a ausência das fontes estresse presentes no meio que  consideramos natural. 
No entanto sabemos que sistemas de confinamento podem afetar tanto comportamento quanto a saúde de vacas leiteiras confinadas quando não construído de forma correta (Nordlund e Cook, 2003). Mas e se proporcionarmos adequações dos sistemas a fim de garantir maior conforto, não seria o confinamento um ambiente ideal para esses animais?
Além disso, em muitos sistemas de confinamento os animais não tem nenhuma ou muito pouca experiência no pasto e se forem soltos no pasto não seria essa uma fonte ainda maior de estresse, uma vez que seu ambiente "natural" seria o confinamento nesse caso?
Porém, o contrário também se torna verdadeiro. Se voltarmos a nossa concepção de ambiente natural (pasto, sem interação com seres humanos e fontes de estresse) podemos pensar que em condições de pastagem onde as devidas adequações como sombra, água disponível e controle de verminoses e doenças, além de um bom manejo de pastagens podem ser considerada com um ambiente ideal certo?! Mesmo que o pasto também possa afetar o comportamento e saúde dos animais se não for bem manejado.

E também da mesma forma um animal que nunca pisou em um confinamento pode sofrer (e muito) até se adaptar a essas condições.

Frente a tudo isso se encaixa o termo de bem-estar ideal, onde um ambiente ideal seria aquele onde saúde básica, estado afetivo e as adaptações naturais se encaixam:


         É esse um dos maiores desafios da ciência do bem-estar, quando se trata de bovinosdefinir qual método de criação proporciona melhor qualidade de vida aos animais, sem pensar no que é o natural mas sim o que é ideal, uma vez que o ambiente natural já se afastou dos nossos bovinos domésticos a muito tempo.

TENHAM UM ÓTIMO DIA!!!!







segunda-feira, 15 de abril de 2013

COMPORTAMENTO ANORMAL EM BOVINOS


BOA DIA GALERA!

Devido a correria da finalização do meu mestrado passei um tempinho sem postar no blog, mas confesso que já estava com saudade =D
Hoje trago um tema bastante interessante quando se fala de bem-estar de vacas leiteiras: Comportamento Anormal

Espero que gostem

Abraço


Os bovinos podem apresentar uma variedade de comportamentos que são frequentemente considerados anormais As definições do termo anormal utilizadas para descrever esse comportamento são diversas (comportamentos raros ou incomuns, ou comportamentos não naturais, por exemplo). Porém em muitos casos a definição de comportamento anormal se deve ao fato de que a função desse comportamento não é clara para o observador e essa definição é mais um reconhecimento de que nós não entendemos tais comportamentos,  do que uma propriedade do próprio comportamento (RUSHEN et al., 2008).

O comportamento esteriotipado é classificado como um dos tipos de comportamento anormal (FRASER, 2012). Segundo Mason (2006) estereotipias podem ser definidas como comportamentos repetitivos, invariantes e sem uma função ou objetivo óbvio. Segundo o autor os animais que apresentam tais comportamentos geralmente o fazem por muito mais tempo que o comum e normalmente previsivelmente no mesmo local ou hora do dia, além de parecer ter dificuldade de parar, sendo como uma compulsão. 
        
   Rolar a língua tanto fora quanto dentro da boca é o comportamento estereotipado, mais comum em vacas leiteiras. Geralmente esse comportamento ocorre concomitantemente com morder as barras e lamber partes do curral ou baia, como barras e correntes (RUSHEN et al., 2008). 

Estudos indicam que o hábito de rolar a língua é muito mais comuns entre vacas que são mantidas amarradas, como no tie stall, por exemplo, do que aquelas mantidas e pastagem ou em sistemas de baias coletivas, onde esse comportamento é praticamente ausente (REDBO, 1990;1992;1993). Sugeriu-se então, que a contenção gerava esse comportamento. No entanto, como esse comportamento tende a suceder ou preceder o comportamento de busca de alimento, sugeriu-se que a motivação para alimentação seguida de busca frustrada por alimento seja uma das causas (REDBO, 1990;1992). Segundo Redbo (1992) o fato dos animais serem mantidos amarrados pode aumentar a incidência desse comportamento já que o tempo gasto manipulando a comida fica reduzido. 

Apesar da ampla utilização do comportamento estereotipado para se avaliar o bem-estar animal, não existem evidências que ele esteja diretamente associado com bem-estar pobre de caso de vacas leiteiras e também outras espécies (MASON; LATHAM, 2004). De fato, em alguns casos os comportamentos anormais podem ajudar os animais. Por exemplo, Wiepkema et al. (1987) monitoraram o comportamento de rolar a língua em bezerros vitelos examinaram os estômagos dos animais após abate com 22 semanas de idade e concluíram que os bezerros que não apresentavam úlceras apresentavam rolar de língua persistente e aqueles que apresentavam mais úlceras eram aqueles que apresentavam pouco esse comportamento. Portanto, ambientes que induzem ou aumentam comportamentos anormais são frequentemente piores que os que não os causam, mas quando mantidos em tais ambientes, os animais que apresentam mais comportamentos estereotipados podem estar menos predispostos a doenças e consequentemente menor comprometimento do bem-estar (MASON; LATHAM, 2004).

Pode-se concluir, portanto, que apesar da ampa utilização dos comportamentos anormais na avaliação do bem-estar de vacas leiteiras tais comportamentos necessitam ser investigados mais amplamente a fim de se entender sua interação com o ambiente e também com o conforto e bem-estar dos animais.
      
No entanto se um sistema apresentar grande número de vacas com estereotipias, como rolar a língua, por exemplo, observações quanto a sua configuração e manejo devem ser feitas, provavelmente algo não está correto e as vacas estão mostrando isso através do seu comportamento.  




Disponível em: http://uglyoverload.blogspot.com.br/2009_04_01_archive.html





REFERÊNCIAS:

FRASER, D. Compreendendo o Bem-Estar Animal – A ciência no seu contexto cultural. tradução de Fregonesi, J.A. – Londrina: Eduel, 2012., 436 p.

MASON, G., LATHAM, N. R. Can‘t stop, won‘t stop: Is the stereotypy a reliable animal welfare indicator? Animal Welfare, v.13, p. s57-s69, 2004.

MASON, G. Stereotypic Anima Behaviour: Fundamentals and Applications to Welfare. 2 ed. Londres: CABI, 2006, 367 p.

REDBO, I. Changes in duration and frequency of steriotypies and their adjoin behaviours in heifers, before, during and after the grazing period. Applied Animal Behaviour Science, v. 26, p.57-67, 1990. 

REDBO, I. The influence of restraint on the occurrence of oral stereotypies in dairy cows. Applied Animal Behaviour Science, v.35, p. 115-123, 1992. 

REDBO, I. Steriotypies and cortisol secretion in heifers subjected to tethering. Applied Animal Behaviour Science, v.38, p. 213-225, 1993.

RUSHEN, J.; DE PASSILÉ, A. M.; VON KEYSERLINGK, M. A. G.; WEARY, D. M.The welfare of cattle. Holanda: Springer, 2008. v.5. 310p. 2008.

WIEPKEMA, P.; VAN HELLEMOND, K.; ROESSINGH, P.; ROMBERG, H. Behavior and abomasal damage in individual veal calves. Applied Animal Behavior Science, v.18, p. 257-268, 1987d